domingo, 23 de agosto de 2015

Diminutivos

USO DO DIMINUTIVO

Os diminutivos nem sempre indicam diminuição de tamanho. Dependendo de como os diminutivos são colocados no contexto, eles podem assumir as mais diversas significações e não apenas diminuição de tamanho.
A significação dos diminutivos depende do contexto e só existe em relação a ele.
Algumas significações dos diminutivos

A- Significacão de aumentativo
1)- Casinha: Dois amigos se encontram e um deles convida o amigo para conhecer a sua “casinha” (diminutivo afetivo, de aconchego).
Quando o amigo chegou em frente à casa, declarou admirado:
- Que “casinha” hein!...
Na realidade, o amigo se admirou porque não era uma casinha, (no sentido de pequena), mas uma casa grande, um casarão.

2)- Friozinho:Quando alguém diz “aquela situação me deu um ‘friozinho na barriga’”, realmente não será o aumentativo de medo?

Nos casos em que os diminutivos se referem a comida, o tom carinhoso, afetivo, surge com muito mais intensidade.

Que comidinha gostosa a sua mãe faz !
Hoje o arrozinho e o feijãozinho da mamãe estavam uma delícia.
Gostou do cafezinho?

B- Eufemismo - Algumas palavras causam desconforto. O diminutivo se presta muito a isso: serve para abrandar, para atenuar uma situação.

Ex.: 1- Remedinho:  Pedro caiu e se machucou, sua mãe lhe deu um remedinho.
Remedinho- tratmento simples.
Remédio – tratamento mais grave.
Ex.:2) Operaçãozinha: “João irá fazer uma operaçãozinha.
Operaçãozinha – simples
Operação – algo mais grave

C- Causar constrangimento ou ofensas. Ironia. Desprezo. Antipatia.
Ex.: 1) Aquele doutorzinho não soube diagnosticar.
  2) Mariana diz que o povinho da vila não tem coragem.
  3) Maria nos serviu um vinhozinho qualquer.

D- Os diminutivos nos nomes dá-lhes um significado carinhoso, sentimental, de ternura.

Lulinha ,, Toninho, Betinho, Bruninho, Rafaelzinho, Rodriguinho, Terezinha, Joãozinho, Ronaldinho, Rubinho, Rosinha. (Isso não quer dizer que são pequenos, mas sim que eles são muito amados).
  -  Escolinha de Futebol: Não quer dizer que é uma escola pequena em tamanho, mas sim uma escola para crianças
 -   A sua casinha é muito bonita. (Casinha não se refere ao tamanho, mas sim ao que ela significa)

E- Carinhosamente, substituem os nomes.

Ex.: Manoel irá visitar sua  Terrinha em janeiro. (Portugal)
       Xuxa e os baixinhos. (Crianças)
   
F- Existem palavras que embora utilizem o sufixo diminutivo, não tem significação de diminutivo. Elas são meramente formais, não encerram a idéia de diminutivos, desde que colocados dentro de um contexto.

1) Santinho: Propaganda eleitoral impressa em formato pequeno, com foto do candidato e informações sobre ele.
2) Folhinha: Folha com o calendário impresso.
3) Patricinha: Mulher que se veste com excessivo apuro.
4) Pegadinha: Ciladas

5) Vaquinha: ajuda mútua, caixinha.


G- Quando o diminutivo sugere alguma recomendação, Isto é, dar a alguém alguma incumbência, alguma ordem, isto não indica mais lentidão ou ligeireza da realização do fato, mas sim acentuar a recomendação, reforçar o sentido.


Pedro! vá depressinha apanhar o meu remédio na farmácia.
   Maria é bom que estudes devagarinho.

H- Os diminutivos dos verbos, dando idéia de freqüência, exprimem uma ação, uma marcha de tempo
que desliza suave e incessantemente.São usados como um desvio gramatical, intencional, estilístico.
Ex.: A vida vai morrendo, morrendinho (Lapa,M. Rodrigues. Est. Da Língua Portuguesa)
O vento madrugouzinho (Caliman, Plínio. O rio da minha aldeia)
Desceu os vales caminhandozinho (Climan, Plínio. O rio da minha aldeia)
Quero estarzinho com ela (Bopp, Raul. Cobra Norato)
Querzinho de ficar junto. (Bopp, Raul. Cobra Norato)

     I - Na linguagem coloquial, onde as manifestações de ternura caracterizam-se por sua intensidade e natural exagero é comum o advérbio e o adjetivo, por afinidade com os substantivos, assumirem uma forma diminutiva, utilizando os sufixos “inho (a)” com um valor de superlativo.
Ex.: Como você está lindinha.( muito linda, lindíssima)

      Ele acordou cedinho para estudar. ( muito cedo)


Os diminutivos deverão ser sempre analisados dentro de um contexto,pois só assim se terá a noção exata de seu significado.

Questão 1-       Balõezinhos
      Manuel Bandeira 

Na feira livre do arrabaldezinho
Um homem loquaz apregoa balõezinhos de cor:
-“O melhor divertimento para as crianças!”
Em redor dele há um ajuntamento de meninos pobres,
Fitando com olhos muito redondos os grandes balõezinhos muito redondos.
No entanto a feira burburinha.
Vão chegando as burguesinhas pobres,
E as criadas das burguesinhas ricas,
E as mulheres do povo, e as lavadeiras da redondeza. Nas bancas de peixe,
Nas barraquinhas de cereais,
Junto às cestas de hortaliças
O tostão é regateado com acrimônia.
[...]
BANDEIRA, Manuel. A cinza das horas; Carnaval; O ritmo dissoluto. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1994.
No poema, os diminutivos “arrabaldezinho”; “balõezinhos”; “burguesinhas; “barraquinhas” representam
(A) alegria do eu lírico ao retornar à sua cidade de origem
(B) agitação das festividades do interior.
      (C) admiração ao ver tantas crianças pobres.
      (D) afetividade do eu lírico com coisas simples do dia a dia.



Questão 2-          O Anel de vidro
                                                   Manuel Bandeira
Aquele pequenino anel que tu me deste,
- Ai de mim – era vidro e logo se quebrou...
Assim também o eterno amor que prometeste,
 - Eterno! Era bem pouco e cedo se acabou.

Frágil penhor que foi do amor que me tiveste,
Símbolo da afeição que o tempo aniquilou
 - Aquele pequenino anel que tu me deste,
- Ai de mim – era vidro e logo se quebrou.

Não me turbou, porém, o despeito que investe
 Gritando maldições contra aquilo que amou.
 De ti conservo na alma a saudade celeste...
Como também guardei o pó que me ficou
Daquele pequenino anel que tu me deste...

Bandeira, Manuel. Estrela da vida inteira - poesia completa. 5. Ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009. P. 74.

Nos versos do poema: “Aquele pequenino anel que tu me deste, (l. 1 e l.7)” e “Daquele pequenino anel que tu me deste...(l. 13)”, o emprego do adjetivo “pequenino”:
(A) exprime a ternura do eu lírico pelo anel de vidro.
(B) acentua o caráter carinhoso que perpassa o poema.
(C) intensifica a afeição do eu lírico pela amada ausente.
(D) expressa o aspecto irônico que caracteriza o poema.

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Senhora, de José de Alencar

terça-feira, 23 de junho de 2015

Sujeito oracional

Nem sempre o sujeito é uma pessoa (nome ou pronome); às vezes trata-se de um fato expresso por uma oração reduzida de infinitivo, ou desdobrada e introduzida por conjunção integrante.  A concordância do verbo será uma só: 3* pessoa. 

Verbos unipessoais - são os verbos que pedem sujeito oracional.
Exemplos de tais verbos: convém,  ocorre, agrada, aparece,  consta, é necessário,  é bom,  é urgente,  etc.

Ex. Cabe aos mestres ensinar a língua pátria.
(ensinar a língua pátria - sujeito oracional representado por oração de infinitivo)

Agrada-me que tenhas ficado
contente.
(que tenhas ficado contente - sujeito oracional representado por oração substantiva integrante.

Nota: Frequentemente o objeto do infinitivo se antepõe ao verbo unipessoal e, às vezes,  além dessa anteposição,  vem repetido ( pleonástico ) .
Ex: Os direitos alheios cabe-me defender.
O sujeito é " defender os direitos alheios".

Os direitos alheios, cabe-me defendê-los.
"los" -é objeto direto pleonástico.
"defender os direitos alheios" - sujeito oracional.

segunda-feira, 15 de junho de 2015

QUESTÕES - MODERNISMO NO BRASIL - 1a FASE

MUSEU DA LÍNGUA PORTUGUESA. Oswald de Andrade: o culpado de tudo.
27 set. 2011 a 29 jan. 2012. São Paulo: Prol Gráfica, 2012.

     Questão 1 -O poema de Oswald de Andrade remonta à ideia de que a brasilidade está relacionada ao futebol. Quanto à questão da identidade nacional, as anotações em torno dos versos constituem

     a) direcionamentos possíveis para uma leitura crítica de dados histórico-culturais.
     b) forma clássica da construção poética brasileira.
     c) rejeição à ideia do Brasil como o país do futebol.
     d) intervenções de um leitor estrangeiro no exercício de leitura poética.

     e) lembretes de palavras tipicamente brasileiras substitutivas das  originais.

     Questão 2- Erro de português

                  Quando o português chegou
                         Debaixo de uma bruta chuva
                         Vestiu o índio
                         Que pena!
                         Fosse uma manhã de sol
                         O índio tinha despido
                                        
Oswald de Andrade

     Sobre o poema de Oswald de Andrade, estão corretas as seguintes proposições:
     
I. Faz uma crítica contra a colonização portuguesa na Brasil. Essa crítica pode ser confirmada a partir do título do poema, o qual contém uma ambiguidade intencional.
     
II. Nesse poema, a temática do relacionamento amoroso é abordada de maneira inovadora, distante da idealização romântica proposta pelos ultrarromânticos.

     III. O poema utiliza elementos como o humor, a ironia e o sarcasmo para relatar a chegada do português em terras brasileiras.
     
IV. Apropria-se de uma linguagem simples e prosaica para fazer uma reflexão profunda e complexa.

     V. No poema de Oswald nota-se a preocupação com a métrica, a versificação e a rima, embora o conteúdo do poema seja inovador.

      a) I, II e IV.
  b) II, III e V.  
c) I, III e IV.
 d) III e IV,
  e) II e V.

Questão 3 – O trovador
Sentimentos em mim do asperamente
dos homens das primeiras eras...
As primaveras do sarcasmo
intermitentemente no meu coração arlequinal...
Intermitentemente...
Outras vezes é um doente, um frio
na minha alma doente como um longo som redondo...
Contabona! Cantabona!
Dlorom...
Sou um tupi tangendo um alaúde!
                                                 Mário de Andrade.

Arlequinal – palhaço, farsante
Tanger - toque (de um instrumento musical)
Alaúde - instrumento musical da família dos cordofones
Cabe  ao Modernismo, a questão da identidade nacional é recorrente na prosa e na poesia de Mário de Andrade. Em O trovador, esse aspecto é
A- Abordado subliminarmente, por meio de expressões como “coração arlequinal” que, evocando o carvanal, remete à brasilidade.
B- Verificando já no título, que remete aos repentistas nordestinos,estudados por Mário de Andrade em suas viagens e pesquisas folclóricas.
C- Lamentado pelo eu lírico, tanto no uso de expressões como“Sentimentos em mim do asperamente” (v.1), “frio” (v. 6), “alma doente”(v. 7), como pelo som triste do alaúde “Dlorom” (v. 9).
D- Problematizado na oposição tupi (selvagem) x alaúde (civilizado), apontando a síntese nacional que seria proposta no Manifesto Antropófago, de Oswald de Andrade.
E- Exaltado pelo eu lírico, que evoca os “sentimentos dos homens das primeiras eras” para mostrar o orgulho brasileiro por suas raízes indígenas.

Questão 4 – POEMA DO BECO
Que importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha do                                                                                                                                                  horizonte?
- O que vejo é o beco.
                                                       Manuel Bandeira

  1. A-       Do que é possível depreender do ‘poema do beco’, qual é o estado de ânimo do eu lírico? Justifique sua resposta.

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  1. B-      No poema, a palavra ‘Glória’ vem grafada com letra maiúscula, representando um tradicional bairro carioca. É possível entender o termo ‘glória’ também no sentido de prestigio, fama? Por quê?

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  1. C-      Há no poema uma oposição entre imagem do ‘beco’ e ‘A Glória, baía, linha do horizonte’. Explique em que consiste essa oposição.

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  1. D-     O termo ‘beco’ não indica somente uma rua sem saída, mas, conotativamente, sugere outras leituras. O que mais pode significar ‘beco’ no contexto do poema?

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  1. E-  -  De que modo a escolha por focalizar o beco reafirma as opções poéticas dos modernistas de 22?

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Questão 5 – Porquinho da índia
Quando eu tinha seis anos
Ganhei um porquinho da índia.
Que dor de coração me dava
Porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão!
Levava ele pra sala
Pra os lugares mais bonitos mais limpinhos
Ele não gostava.
Queria era estar debaixo do fogão!
Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas...
- O meu porquinho da índia foi a minha primeira     namorada.
                                             Manuel Bandeira
A -Aponte dois aspectos de estilo que estejam relacionados ao tema da infância? Explique.
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    B- Qual é o elemento comum entre a experiência infantil e a experiência mais adulta presentes no poema? Explique.
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GABARITO
          

  1.      A
  2.    C
  3.    E
  4.   -  A- o eu lírico esta desanimado , triste, entediado, sem perspectiva. O fato de ele ver apenas o beco – rua estreita e curta, muitas vezes sem saída – é o que afirma a sua melancolia.

          B-sim. As paisagens grandiosas anunciadas – o bairro da Gloria, a baía – da Guanabara - , a linha do horizonte – são gloriosas, tem charme e prestigio.

           C-o eu lírico cria uma oposição entre essas duas imagens para evidenciar seu estado de espirito – de depressão, de desalento, de tristeza. Pelo modo como o poema foi construído, pose-se inferir que o eu lírico tem diante de si uma paisagem bela – a GLORIA, A BAÍA, A LINHA DO HORIZONTE,  mas ele apenas consegue ver o beco.

             D-pode significar a falta de sentido, a impossibilidade de se continuar algo, a tristeza do eu lírico.
            E-os modernistas de 22 levam a poesia ás ruas, buscam A TEMÁTICA cotidiana, prosaica. A escolha do beco em vez de grandes símbolos reflete essa opção.

5  - A- uso do diminutivo para expressar afeto, a coloquialidade presente na expressão ‘dor de coração’ , a opção por um registro informal de linguagem em ‘levava ele’ e ‘pra os lugares’ – em vez de levava-o e para os lugares, conforme a gramatica normativa.

      B-o elemento comum é a rejeição. Tanto o bicho de estimação do eu lírico quando criança quanto a namorada com se relaciona na idade adulta rejeitam suas ‘ternurinhas’, seu carinho.  




QUESTÕES - ROMANTISMO NO BRASIL - POESIA

Questão 1 -Gonçalves Dias se destaca no panorama da primeira fase romântica pelas suas qualidades superiores de artista. Nele:
a) a pátria é retratada de maneira que se tenha um registro fiel da sua fauna e flora, sem interferência da emoção do poeta, como em “Canção do Exílio”.
b) a persistência de traços do espírito clássico impede o exagero do sentimentalismo, encontrado, por exemplo, em Casimiro de Abreu.
c) o indianismo é fiel à verdade da vida indígena, não apresentando a distorção poética observada em outros escritores.
d) protótipo do byroniano, convivem lado a lado o humor negro e o extremo idealismo.
e) predomina a poesia lírica de recuperação da infância, com acentuado tom saudosista, tão evidente em “Meus Oito Anos”

TEXTO PARA AS QUESTÕES 2 E 3
Canção do exílio
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.

Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer eu encontro lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar –sozinho, à noite–
Mais prazer eu encontro lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu'inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Questão 2-  Recorrendo às características pertinentes à era romântica, sobretudo àquela demarcada pela primeira geração, cujo representante maior foi Gonçalves Dias. Quais características podem encontrar no poema?
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Questão 3 – Com o país é visto representado nesse poema?
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Questão 4-
Sobre o Ultrarromantismo, é incorreto afirmar:
a) Grupo composto por jovens poetas universitários de São Paulo e Rio de Janeiro nas décadas de 50 e 60 do século XIX. Foram fortemente influenciados pela leitura de obras literárias de Musset e Byron, escritores cujo estilo de vida imitavam.
b) Uma de suas principais características é o espírito do mal do século, uma onda de pessimismo doentio que se traduzia no apego a certos valores decadentes, como a bebida e o vício, na atração pela noite e pela morte.
c) Entre as principais características do Ultrarromantismo estão o nacionalismo, o indianismo, o regionalismo, a pesquisa histórica, folclórica e linguística, além da crítica aos problemas nacionais.
d) Seus principais representantes foram os poetas Álvares de Azevedo, Casimiro de Abreu, Fagundes Varela e Junqueira Freire.
e) Também conhecido como segunda geração do romantismo, o Ultrarromantismo apresentou características como egocentrismo exacerbado, pessimismo, satanismo e atração pela morte.

Questão 5 - Descansem no meu leito solitário
Na floresta dos homens esquecida,
À sombra de uma triste cruz e escrevam nela
- Foi poeta –sonhou- e amou na vida.

Nos versos de Álvares de Azevedo, notam-se características de qual tendência romântica?

a)   Mal-do-século
b)   Bucolismo
c)   Crítica social
d)   Nacionalismo
e)   Indianismo

Questão 6 – ‘Para ser poeta era necessário sofrer com desespero os embates da paixão desordenada e sentir na vida boêmia  os negros pesares do infortúnio; era preciso descrer da felicidade e morrer jovem.’
Essa citação caracteriza a escola literária ..............., mais especificamente a ................ . Ele sintetiza um estado de espirito que tomou conta de uma época e que se chamou ........................

a) romântica – 1ª geraçao -  nacionalista
b)  condoreira – 2ª geraçao – poesia social
c ) romântica – 2ª  geraçao – mal do século
d) nacionalista – 3ª  geração – ultrarromântica

Questão 7 -  O texto a seguir necessita de diferentes termos para que fique coeso. Empregue apropriadamente os elementos –
(E – AINDA – ENQUANTO – POIS – APENAS – MAS – CADA VEZ MAIS – QUE )

....................................................., a mulher se conscientiza de  sua tarefa na sociedade, ......................., devido às  suas históricas condições de fraqueza, as mudanças sociais não avançaram como deveriam. Apesar dos avanços feitos no correr das ultimas décadas, a luta contra a mentalidade injusta ................machista ..................se faz necessária, ..............não é correto considerar a mulher um ser-objeto em função dos gostos masculinos. Entretanto, ........................o mundo não se torna um lugar mais justo, são muitos os .......................veem a mulher ..................... como ‘Amélia’ do lar.


Questão 8 – Que diferenças há entre o conceito de ‘poeta’ para Castro Alves e para Álvares de Azevedo
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GABARITO




 Resposta Questão 1 – letra  B

Resposta Questão 2
O nacionalismo, tão cultuado pelo poeta em estudo, ressoava marcas de uma nação recentemente liberta das amarras de Portugal, que por tanto tempo se fez dominador nessas terras. Assim, traços ideológicos como esse tão bem casavam com a situação, visto que as belezas aqui encontradas, sobretudo aquelas condizentes aos aspectos naturais, à própria cultura propriamente dita, levando em conta as origens, as raízes, representavam marcas aparentes e, portanto, passíveis de serem exaltadas. Dessa forma, até mesmo no exílio, mais especificamente em Portugal, o poeta não deixou de mencionar, nitidamente demarcado pelo uso dos advérbios “cá” e “lá”, que aqui até o gorjeio das aves se manifestava de forma diferente, já não falando das várzeas, dos bosques, do céu, enfim.

Resposta questão 3 – o pais é visto como um lugar único e melhor; aqui haveria mais estrelas, mais flores, mais bosques, mais vida e mais amores, ou seja, o eu lírico seria mais feliz.

Resposta Questão 4
 Alternativa “c”. As características descritas na alternativa “c” dizem respeito à primeira geração do romantismo, representada pelos poetas Gonçalves Dias e Gonçalves de Magalhães.

Reposta Questão  5 – letra A

Resposta Questão 6 – letra C

Resposta Questão 7 – cada vez mais , mas, e , ainda , pois , enquanto , que , apenas

Resposta Questão 8- para Álvares de Azevedo  o poeta é um ser marginal ao mundo, voltado para dentro de si, para o seu universo particular de desejos e sonhos. Já para Castro Alves, o poeta é um ser de compromisso social, empenhado em transformar, por meio da palavra, a sociedade em que vive.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Noite na taverna, com o conto Solfieri

Solfieri
...Yet one kiss on your pale clay
And those lips once so warm - my heart! My heart.
Byron, Cain..
Sabeis-lo. Roma é a cidade do fanatismo e da perdição: na alcova do sacerdote dorme a gosto a amásia; no leito da vendida se pendura o crucifixo lívido. É um requintar de gozo blasfemo que mescla o sacrilégio à convulsão do amor, o beijo lascivo à embriaguez da crença
Era em Roma. Uma noite, a lua ia bela como vai ela no verão por aquele céu morno. O fresco das águas se exalava como um suspiro do leito do Tibre. A noite ia bela. Eu passeava a sós pela ponte de ***. As luzes se apagaram uma por uma nos palácios, as ruas se faziam ermas e a lua de sonolenta, se escondia no leito das nuvens. Uma sombra de mulher apareceu numa janela solitária e escura. Era uma forma branca. - A face daquela mulher era como de uma estátua pálida à lua. Pelas faces dela, como gotas de uma taça caída, rolavam fios de lágrimas.
Eu me encostei à aresta de um palácio. A visão desapareceu no escuro da janela... e daí um canto se derramava. Não era só uma voz melodiosa: havia naquele cantar um como choro de frenesi, um como gemer de insânia: aquela voz era sombria como a do vento à noite nos cemitérios cantando a nênia das flores murchas da morte.
Depois, o canto calou-se. A mulher apareceu na porta. Parecia espreitar se havia alguém nas ruas. Não viu ninguém: saiu. Eu segui-a.
A noite ia cada vez mais alta: a lua sumira-se no céu e a chuva caía às gotas pesadas: apenas eu sentia nas faces caírem grossas lágrimas de água, como sobre um túmulo prantos do órfão.
Andamos longo tempo pelo labirinto das ruas: enfim, ela parou; estávamos num campo.
Aqui, ali, além, eram cruzes que se erguiam entre o ervaçal. Ela ajoelhou-se. Parecia soluçar: em torno dela passavam as aves da noite.
Não sei se adormeci: sei, apenas, que quando amanheceu achei-me a sós no cemitério. Contudo, a criatura pálida não fora uma ilusão: as urzes, as cicutas do campo-santo estavam quebradas junto a uma cruz.
O frio da noite, aquele sono dormido à chuva, causaram-me uma febre. No meu delírio passava e repassava aquela brancura de mulher, gemiam aqueles soluços e todo aquele devaneio se perdia num canto suavíssimo...
Um ano depois voltei a Roma. Nos beijos das mulheres, nada me saciava; no sono da saciedade me vinha aquela visão...
Uma noite e após uma orgia, eu deixara dormida no leito a bela condessa Barbora. Dei um último olhar àquela forma nua e adormecida com a febre nas faces e a lascívia nos lábios úmidos, gemendo ainda nos sonhos como na agonia voluptuosa do amor. Saí. Não sei se a noite era límpida ou negra; sei apenas que a cabeça me escaldava de embriaguez. As taças tinham ficado vazias na mesa: aos lábios daquela criatura eu bebera até à última gota do vinho do deleite...
Quando dei acordo de mim, estava num lugar escuro: as estrelas passavam seus raios brancos entre as
 vidraças de um templo. As luzes de quatro círios batiam num caixão entreaberto. Abri-o. Era o de uma moça. Aquele branco da mortalha, as grinaldas da morte na fronte dela, naquela tez lívida e embaçada, o vidrento dos olhos mal-apertados... Era uma defunta! E aqueles traços todos me lembraram uma idéia perdida... Era o anjo do cemitério! Cerrei as portas da igreja que, ignoro porque, eu achara abertas. Tomei o cadáver nos meus braços para fora do caixão. Pesava como chumbo...
Sabeis a história de Maria Stuart degolada e do algoz, "do cadáver sem cabeça e do homem sem coração", como a conta Brantôme? - Foi uma idéia singular, a que eu tive. Tomei-a no colo. Preguei-lhe mil beijos nos lábios. Ela era bela assim. Rasguei-lhe o sudário, despi-lhe o véu e a capela, como o noivo os despe à noiva. Era mesmo uma estátua: tão branca era ela. A luz dos tocheiros dava-lhe aquela palidez de âmbar que lustra os mármores antigos. O gozo foi fervoroso - cevei-lhe em perdição aquela vigília. A madrugada passava já frouxa nas janelas. Àquele calor de meu peito, à febre de meus lábios, à convulsão de meu amor, a donzela pálida parecia reanimar-se. Súbito, abriu os olhos empanados. Luz sombria alumiou-os como a de uma estrela entre névoa, apertou-me em
 seus braços, um suspiro ondeou-lhe nos beiços azulados... Não era já a morte: era um desmaio. No aperto daquele abraço havia, contudo, alguma coisa de horrível. O leito de lajes, onde eu passara uma hora de embriaguez, me resfriava. Pude, a custo, soltar-me naquele aperto do peito dela... Nesse instante, ela acordou...
Nunca ouvistes falar de catalepsia? É um pesadelo horrível aquele que gira ao acordado que emparedam num sepulcro; sonho gelado em que sentem-se os membros tolhidos e as faces banhadas de lágrimas alheias, sem poder revelar a vida!
A moça revivia a pouco e pouco. Ao acordar, desmaiara. Embucei-me na capa e tomei-a nos braços coberta com seu sudário, como uma criança. Ao aproximar-me da porta, topei num corpo. Abaixei-me e olhei: era algum coveiro do cemitério da igreja, que aí dormira de ébrio, esquecido de fechar a porta...
Saí. Ao passar a praça encontrei uma patrulha.
- Que levas aí?

A noite era muito alta: talvez me cressem um ladrão.
- É minha mulher, que vai desmaiada...
- Uma mulher? Mas, essa roupa branca e longa? Serás, acaso, roubador de cadáveres?
Um guarda aproximou-se. Tocou-lhe a fronte: era fria.
- É uma defunta
Cheguei meus lábios aos dela. Senti um bafejo morno. - Era a vida, ainda.
- Vede - disse eu.
O guarda chegou-lhe os lábios: os beiços ásperos roçaram pelos da moça. Se eu sentisse o estalar de um beijo... o punhal já estava nu em minhas mãos frias...
- Boa-noite, moço. Podes seguir - disse ele.
Caminhei. - Estava cansado. Custava a carregar o meu fardo e eu sentia que a moça ia despertar. Temeroso de que ouvissem-na gritar e acudissem, corri com mais esforço...

Quando eu passei a porta, ela acordou. O primeiro som que lhe saiu da boca foi um grito de medo...
Mal eu fechara a porta, bateram nela. Era um bando de libertinos, meus companheiros, que voltavam da orgia. Reclamaram que abrisse.
Fechei a moça no meu quarto e abri.
Meia hora depois eu os deixava na sala, bebendo ainda. A turvação da embriaguez fez que não notassem a minha ausência.
Quando entrei no quarto da moça, vi-a erguida. Ria de um rir convulso, como a insânia, e frio como a folha de uma espada. Trespassava de dor ouvi-la.
Dois dias e duas noites levou ela de febre, assim.
Não houve sanar-lhe aquele delírio, nem o rir do frenesi. Morreu depois de duas noites e dois dias de delírio.
À noite, saí. Fui ter com um estatuário que trabalhava perfeitamente em cera e paguei-lhe uma estátua
dessa virgem.
Quando o escultor saiu, levantei os tijolos de mármore do meu quarto e, com as mãos, cavei aí um túmulo. Tomei-a, então, pela última vez nos braços, apertei-a a meu peito, muda e fria, beijei-a e cobri-a, adormecida no sono eterno, com o lençol de seu leito. Fechei-a no seu túmulo e estendi meu leito sobre ele,
Um ano, - noite a noite - dormi sobre as lajes que a cobriam... Um dia, o estatuário me trouxe a sua obra. Paguei-lha e paguei o segredo...
- Não te lembras, Bertram, de uma forma branca de mulher que entreviste pelo véu do meu cortinado? Não te lembras que eu te disse que era uma virgem que dormia?
- E quem era essa mulher, Solfieri?
- Quem era? Seu nome?
- Quem se importa com uma palavra quando sente
que o vinho queima assaz os lábios? Quem pergunta o nome da prostituta com quem dormiu e sentiu
morrer a seus beijos, quando nem há dele mister por escrever-lho na lousa?
Solfieri encheu uma taça e bebeu-a. Ia erguer-se da mesa, quando um dos convivas tomou-o pelo braço.
- Solfieri, não é um conto, isso tudo?
- Pelo inferno, que não! Por meu pai, que era conde e bandido! Por minha mãe que era a bela Messalina das ruas! Pela perdição que não! Desde que eu próprio calquei aquela mulher com meus pés na sua cova de terra, eu vo-lo juro! - guardei-lhe como amuleto a capela de defunta. Ei-la!
Abriu a camisa e viram-lhe ao pescoço uma grinalda de flores mirradas.

- Vedes-la? Murcha e seca, como o crânio dela.

Observações
1. Relação entre o protagonista e a jovem é macabra.
2. A jovem supostamente morta, na verdade, estava em sono cataléptico.
3. Comportamento designado de necrofilia por dois motivos:
a)já que para Solfieri, o protagonista, a jovem estava morta e tem continuação mesmo após a morte real dela quando e enterrada embaixo de sua cama
b) também pelo fato de Solfieri trazer ao pescoço as flores murchas da grinalda que a jovem levava no caixão.
4. A epígrafe do conto, de autoria de Lord Byron, alude a um beijo apaixonado nos lábios de um corpo pálido e frio.
5. Características de Álvares de Azevedo presentes no texto:
   a) medo de amar
.  b) fantasia
   c) sonho
   d) imaginação
   
6.  O tema do conto é a necrofilia, a morte, a catalepsia e o amor obsessivo.
7. Caracterização dos personagens
a) Solfieri- jovem boêmio, alcoólatra, persistente, pois que faz de tudo para alcançar o amor da mulher.
b)A MULHER AMADA POR SOLFIERI – Era como um anjo para ele, uma pessoa que sofria de catalepsia e depressão.

segunda-feira, 23 de março de 2015

Fernando Pessoa


Fernando Pessoa:
castidade e dificuldades
financeiras

                            O baú do poeta


Nova edição revela facetas de Fernando Pessoa
e ilumina pontos de sua discreta biografia
                                          Carlos Graieb




O poeta português Fernando Pessoa (1888-1935) é um sucesso de público  e crítica . Considerado unanimemente o melhor da língua  ao lado de Luís de Camões, Pessoa hoje é também saudado como um dos maiores de todos os tempos, em qualquer idioma. Ele é o único português que aparece entre os grandes em O Cânone  Ocidental elaborado pelo crítico americano Harold Bloom. Nas ultimas décadas , Pessoa também virou ídolo popular no Brasil e em Portugal. Ao lado de Che Guevara e Gandhi, o campeão de vendas daquelas camisetas que trazem frases impressas. As dele são sempre as mesmas: "Tudo vale a pena quando a alma não é pequena" e "O poeta é um fingidor". Pessoa, no entanto, é muito mais do que isso. Mesmo os fãs do poeta português conhecem pouco, proporcionalmente, de sua obra. Fernando Pessoa publicou apenas um livro em vida, Mensagem, e alguns versos em jornal. Boa parte de sua literatura ficou guardada numa arca de madeira escura, grandalhona, contendo exatamente 27.543 textos. Nos anos 40, uma parcela desse legado foi lançada numa primeira edição de sua obra completa, mas ficou faltando muita coisa. Os novos  começaram a vir à tona há cerca de quinze anos, em livros que só circularam entre especialistas. Apenas no ano passado, em Portugal, atingiram o grande público numa edição comercial da obra de Pessoa que saiu pela casa Assírio & Alvim de Lisboa. Essa nova edição, que deverá ter ao todo 23 volumes, começa ser publicada agora no Brasil pela Companhia das Letras. Os livros trará muitas surpresas mesmo para o leitor habitual de Pessoa.




Como todo mundo aprendeu na escola, o poeta português o famoso pelas personalidades literárias que criou. As mais famosas são o clássico Ricardo Reis, o pagão Alberto Caeiro e o atormentado Álvaro de Campos, chamados heterônimos porque tinham estilo próprio e até temperamentos diferentes. Mais alguns poucos eram conhecidos: o guarda-livros Bernardo Soares e os ingleses Charles Anon e Alexander Search. Estudos recentes demonstraram que chegam a 72 as personalidades literárias de Pessoa. Também trazem subsídios para iluminar a discreta biografia do poeta. Ele, que jamais teve emprego fixo, viveu apertado com dúvidas e acossado pela pobreza. Agora, pode-se entender melhor suas posições políticas  e até sua sexualidade. Por último, as pesquisas restabelecem o texto original de alguns poemas de Pessoa que haviam sido publicados anteriormente de forma errada.

Machista — Talvez os dados mais impressionantes que emergem dos textos recém-descobertos sejam os relativos às novas personalidades literárias do autor. Muitos merecem leitura, como Antônio Mora e o Barão de Teive. O primeiro é filósofo. Ele teoriza sobre um certo neopaganismo e mostra o lado provocador de Pessoa, com passagens polêmicas que levariam o poeta à execração pública em tempos politicamente corretos. Num fragmento encontrado pela professora portuguesa Teresa Rita Lopes, flagra-se o machista Mora dizendo o seguinte: "As três classes mais profundamente viciadas, na sua missão social, pelo influxo das ideias modernas, são as mulheres, o povo e os políticos. A mulher, na nossa época, supõe-se com direito a ter uma personalidade; o que pode parecer 'justo', 'lógico ' e outras coisas parecidas; mas que infelizmente foi de outro modo disposto pela natureza". Já o Barão de Teive é um pouco parecido com Bernardo Soares, o autor do famoso Livro do Desassossego. Pessoa inventou a história de que teria encontrado "o único  manuscrito" do barão o numa gaveta. A Assírio & Alvim pretende publicar livros com textos de Mora e de Teive. Segundo Teresa Rita Lopes, que há mais de três décadas se dedica ao estudo de Pessoa e já produziu alguns ensaios marcantes, como os dois volumes de Pessoa por Conhecer, as varias personalidades literárias inventadas por Pessoa eram como figuras de um romance, ou diário, que ele foi "escrevendo para viver e vivendo para escrever".


Os novos textos já publicados em Portugal revelam facetas inusitadas do talento de Pessoa. Ele gostava, por exemplo, de escrever poemas infantis para as sobrinhas. Esses poucos textos já estão reunidos num volume, O Melhor do Mundo São as Crianças. Em A Língua  Portuguesa, o poeta reflete longamente sobre o idioma dando a entender que, hoje, seria um opositor feroz da reforma ortográfica. Existe ainda o Pessoa ficcionista, autor da novela A Hora do Diabo, que tinha inclusive planos de redigir contos policiais. Há o criador de chistes e piadas e o inventor de charadas e jogos. Note-se, aliás, que boa parte dos trabalhos mencionados é em prosa. Pouca gente sabe, mas a obra em prosa de Fernando Pessoa é mais extensa que a política.


Sexualidade "branca" — Pessoa namorou uma única mulher, Ofélia Queiroz, que parece ter-lhe inspirado uns poemas ruins e várias cartas ("todas as cartas de amor são ridículas" ). Não se sabe de outras aventuras sexuais, de qualquer tipo, que possa ter tido. Foi ele homossexual? Ou teve uma sexualidade "branca", inexistente? Só há especulações. Ele sempre se achou feio. E triste. Normalmente é lembrado como um homem tímido, dado a devaneios metafísicos (algo que está bem documentado em sua poesia) e a explorações místicas. Pessoa, que pensou em ser astrólogo profissional, usando o pseudônimo Rafael Baldaya, guiava-se por seu horóscopo . Certa vez, deixou a poetisa brasileira Cecília Meireles aguardando em um café porque os astros lhe diziam que o dia não era propício para conhecer novas pessoas.

Ao contrário do que se pensava, Pessoa escreveu sobre sexo. Há no espolio diversos poemas e textos a respeito de amor e de mulheres, no sentido bíblico. Frequentemente  eles são surpreendentes. "O desdobramento do eu é um fenômeno  em grande número de casos de masturbares", escreveu Pessoa, certamente pensando em seus próprios  heterônimas. Um deles, o já citado Antônio  Mora, defende que a mulher deve ter experiências sexuais antes do casamento, em contraste com o que rezava o costume da época . Em outra passagem desconhecida, Pessoa joga com a ideia da homossexualidade: Álvaro de Campos faz insinuações a respeito de Ricardo Reis, que teria tentado disfarçar, "pela sintaxe", o fato de que uma de suas odes é dirigida a um rapaz. Segundo Teresa Rita Lopes, o mais provável é que Pessoa fosse casto, não gay. "Se não assumiu, é porque não tinha de assumir. Ele não teria problemas quanto a isso, já que defendeu sem preconceitos seus amigos homossexuais, como o escritor Antônio  Botto".

As primeiras incursões no espólio literário de Fernando Pessoa ocorreram na década de 40. Ligados à editora portuguesa ética, esses exploradores desentranharam do baú escritos fundamentais. As edições da ética têm o mérito  do pioneirismo e tornaram-se canônicas pelos cinquenta anos seguintes. Serviram de base, por exemplo, para as edições brasileiras mais utilizadas, a da Nova Aguilar e a da Nova Fronteira. Esses pioneiros, contudo, fizeram certa bagunça a remexendo a papelada, que só voltou a ter ordem em 1968, quando foi catalogada. Também mandaram para a gráfica poemas em que havia duvidas, deixando para os tipógrafos a responsabilidade de "acertar" o texto. Ate hoje isso compromete a boa leitura de alguns clássicos. É o caso de "Passagem das horas", extenso poema assinado pelo heterônimo  Álvaro  de Campos. Em 1990, a pesquisadora brasileira Cleonice Berardinelli, membro da Equipe Pessoa, uma comissão o nomeada pelo governo português  para fazer edições e críticas  da obra do poeta, descobriu que a edição  da ética simplesmente invertia o posicionamento de dois grandes trechos do poema, alterando sua interpretação.  Em outros casos, havia erros de grafia que modificavam completamente o sentido, como no verso Assim sou a máscara  — que durante cinquenta   anos foi lido como Assim sem a máscara .




No caso das edições  da Assírio  & Alvim, a responsabilidade pelo texto cabe a Teresa Rita Lopes e seus colaboradores. "Não o estamos fazendo edições as  críticas , mas edições criteriosas", diz a pesquisadora. "Os versos de Pessoa costumam ter muitas variantes, sem indicação o de qual era a opção final. Para dar conta disso, redigimos as notas necessárias, mas evitando que esse aparato técnico  se transforme num problema para o leitor comum." Existe, porém, uma questão  jurídica em torno dessa nova edição o que começa a sair no Brasil. A obra de Pessoa, que havia caído em domínio  público  em 1985, voltou a ser patrimônio  dos herdeiros do poeta no ano passado, graças  a uma mudança na legislação europeia. Esses herdeiros concederam exclusividade de publicação à Assírio & Alvim e, em razão disso, as outras edições de Pessoa que existiam em Portugal (algumas boas, outras muito ruins) estão saindo aos poucos de circulação. A pergunta é : será que essa legislação  vale também  no Brasil? O assunto dá pano para mangas. Segundo o diretor da Assírio & Alvim, Manuel Hermínio  Monteiro, a expectativa é de que os livros lançados  por outras editoras, que não  a Companhia das Letras, também deixem o mercado, sem que para isso seja necessária  ação na Justiça. Tudo indica, porém, que uma nova pendenga judicial vem aí.



Texto de apoio


"É raro um país e uma língua ganharem quatro grandes poetas em um só dia. Foi o que aconteceu em Lisboa a 8 de março de 1914". Dessa forma o crítico George Steiner descreveu no jornal americano The New York Times o surgimento dos quatro principais heterônimos de Fernando Pessoa (veja o quadro). Esse inusitado nascimento quádruplo é apenas um dos marcos do fascinante universo literário criado por esse poeta português, morto em 1935, e receptáculo de nada menos que 72 heterônimos. Juntos, eles escreveram a obra de Pessoa, cada um no seu estilo literário, cada um com sua visão de mundo, seus sonhos e idiossincrasias. A genialidade do poeta está nessa rara capacidade de enxergar o mundo, e dele fazer poesia, incorporando profundamente tantas visões diferentes. Este plano de aula tem como conteúdos a despersonalização, a criação literária e a literatura portuguesa moderna.


Muitas têm sido as explicações propostas para a heteronímia. A melhor delas é a do próprio Fernando Pessoa, que escreveu que "o ponto central da minha personalidade como artista é que sou um poeta dramático; tenho, continuamente, em tudo quanto escrevo, a exaltação íntima do poeta e a despersonalização do dramaturgo. Vôo outro - eis tudo. (...) Desde que o crítico fixe, porém, que sou essencialmente poeta dramático, tem a chave da minha personalidade, no que pode interessá-lo a ele, ou a qualquer pessoa que não seja um psiquiatra, que, por hipótese, o crítico não tem que ser. Munido desta chave, ele pode abrir lentamente todas as fechaduras da minha expressão".

Fernando Pessoa fornece nesse trecho a "chave" para a análise de seu trabalho. O poeta tem a capacidade de "voar outro", ou seja, é capaz de construir uma pessoa inexistente que sente realmente outras emoções e sensações. Processo semelhante acontece quando um ator representa personagens.

A criação dos heterônimos é, portanto, um processo artístico consciente e não deve ser encarada como algo "estranho". Na origem de tudo está a capacidade de despersonalizar-se. Com inteligência e imaginação consegue-se viver analiticamente um personagem que acaba por ser um novo escritor, "com estilo próprio", formado por um "grupo de estados de alma mais aproximados".

Um drama feito de gente

Fernando Pessoa transforma a despersonalização dramática em processo de criação literária tão perfeitamente que muitas vezes temos dificuldade de entender quem eram realmente os heterônimos. Como, afinal, ele conseguia criar tantos personagens? De novo o próprio poeta esclarece: "O que Fernando Pessoa escreve pertence a duas categorias de obras, a que poderemos chamar ortônimas e heterônimas. Não se poderá dizer que são anônimas e pseudônimas (...). A obra pseudônima é do autor em sua pessoa, salvo no nome que assina; a heterônima é do autor fora de sua pessoa, é de uma individualidade completa fabricada por ele, como seriam os dizeres de qualquer personagem de qualquer drama seu. (...) Estas individualidades devem ser consideradas como distintas da do autor delas. Cada uma forma uma espécie de drama; e todas elas juntas formam outro drama. (...) É um drama em gente, em vez de em atos".

 
A palavra pseudônimo é formada pelos radicais gregos pseudo, "falso", e onimo, "nome" e designa o nome falso adotado por um escritor para publicar seus textos. Heterônimo (do grego hetero, "outro", "diferente", e onimo, "nome") indica uma "individualidade literária completa", ou seja, um escritor e sua forma pessoal de expressão - criados do mesmo modo como se criam personagens e falas no processo teatral (ou dramático, que é a palavra preferida por Pessoa).

Fernando era também heterônimo
Os principais heterônimos criados por Fernando Pessoa foram Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos, a cujas obras se deve somar a de Fernando Pessoa ortônimo (do grego orto, correto e onimo, nome). Entre esses principais heterônimos existe, segundo Pessoa, uma relação importante: a obra poética de Alberto Caeiro influenciou os poemas dos outros três. Nesse "conjunto dramático" deve-se incluir a obra de Fernando Pessoa ortônimo - que, no jogo criado pelo poeta, não deve ser visto como o "verdadeiro" Fernando Pessoa, mas como mais um heterônimo. À obra dos quatro principais heterônimos deve ser somado o trabalho de outros 68 personagens, muitos deles apenas esboçados, entre eles Alexander Search, Antônio Mora, Antônio Seabra, Barão de Teive, Bernardo Soares, Carlos Otto, Coelho Pacheco, Faustino Antunes e Henry More.


Alberto Caeiro 
É o próprio paganista, mestre dos outros heterônimos, pensava de forma simples, sem questionamentos. Para Caeiro, não há mistérios nas coisas. A alma isolada é inexistente, pois é algo que não se vê. Ela só passa a existir quando se une ao corpo, que é palpável e visível. Cristo existe desde que materializado - Cristo pode ser uma flor... Na poesia, tem uma estética na qual a imperfeição compõe uma obra desarmoniosa, sem preocupação com estética e rimas - é tido como poeta desleixado. A própria natureza é sempre desigual, por isso, para ele, não existe harmonia, as coisas são diferentes umas das outras. Caeiro não se prende a nada - viveu por viver. Para ele, viver é normal. Caeiro tinha um estilo direto e simples, mas a compreensão é complexa, já que o poeta faz reflexões profundas em seus escritos. 

Alberto só escrevia poesia, não achava possível retratar a realidade através da prosa. Contra o pensamento filosófico, o escritor acredita que sentir é mais importante que pensar. Uma das obras mais conhecidas é “O Guardador de Rebanhos”

Álvaro de Campos 

Tem a visão multifacetada do real e a crise de identidade é seu marco. Era solitário e depressivo. Viveu tudo na vida intensamente. Possuía a filosofia do niilismo - nada valeu a pena, tudo foi em vão. Expressava tédio por um mundo que não o aceitava, colocava-se com linguagem despida de beleza. Sua poesia era grotesca, formada em um gênero literário desqualificado, sob a finalidade de aliviar-nos a beleza. O seu esforço em conhecer a si próprio fragmenta o seu próprio eu. Mostra-se impotente frente ao real.

Apesar de português, o escritor foi educado em inglês, o que o faz sempre se sentir um estrangeiro. O poeta teve fases diferentes em sua literatura, no começo tinha proximidade com o simbolismo, depois com o futurismo e então a visão niilista ficou presente nas suas obras. 
Na primeira fase, é o tédio e a busca por experiências diferentes que marcam a poesia. A segunda é marcada pela otimismo da civilização. E a terceira é mais introspectiva e apresenta uma poesia pessimista. Campos apostava em uma linguagem ousada para a época, mais livre. 
Ao contrário da racionalidade de Ricardo Reis, Campos coloca emoção em seus escritos. É considerado o alter ego de Pessoa. 


Ricardo Reis

Utiliza estilo refinado na forma poética, mediado pela frieza e pelo controle emocional. Oferece reflexão sobre as coisas, define a vida como passageira, vamos morrer um dia - Carpe Diem. É considerado um autor clássico por utilizar figuras mitológicas e vocabulário requintado. Para ele, o que vale é o real visto em sua superfície, apreendido pelos sentidos. Para Ricardo Reis, a religião é pagã (Cristo é só mais um Deus), a natureza é a pluralidade das coisas. O que predomina é a razão sobre a sensibilidade, o homem é impotente perante a morte, sendo incapaz de superá-la.O médico que acredita na monarquia tinha uma escrita mais tradicional, a linguagem utilizada pelo heterônimo é culta e apresenta um lado clássico. Ricardo foi viver no Brasil quando a república foi proclamada em Portugal. Os textos de Reis foram publicados na revista “Athena” e na “Presença”. 
O autor acredita na busca pela tranquilidade através do epicurismo, uma doutrina que acredita em evitar a dor, aproveitar a vida e não ter medo de morrer. E também do estoicismo, que acredita na importância da razão estar acima da paixão e na aceitação dos limites. 
Como Pessoa não determinou sua morte, José Saramago, outro importante autor português, escreveu o livro “O Ano da Morte de Ricardo Reis”